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Caso Clínico - Renascendo no Dia de Finados

A descoberta da mediunidade por vias dolorosas e redentoras

Era o primeiro sábado de novembro de 2012, quando Fátima Tavares de Mendonça amanheceu se sentindo estranha. A médica pediatra, que morava em Niterói (RJ), mas trabalhava de quarta a sexta em um posto de saúde na cidade fluminense de Rio das Ostras, havia pedido para o marido passar o feriado prolongado de Finados com ela. Luiz iria sair de Niterói com destino a Rio das Ostras, uma cidade praiana a 170 quilômetros do Rio, mas Fátima ligou cancelando a viagem do marido. “Vou voltar para casa, não estou me sentindo bem”, afirmou.

Fátima sentia uma angústia enorme, acompanhada de dor no corpo e torpor. Uma sensação completamente inexplicável para quem estava bem até o dia anterior. Chegou a pensar que estava com dengue. Em casa, em Niterói, a situação só piorou. Fátima se trancou no quarto e só queria dormir. Buscava o silêncio, qualquer barulho a irritava.

O desconforto foi se tornando contínuo. Chegaram as festas de fim de ano e ela permanecia angustiada e triste. Sua única tarefa além do trabalho era dormir. Em janeiro, aconselhada por colegas, ela decidiu procurar um psiquiatra. O especialista lhe receitou um antidepressivo (fluoxetina) e um ansiolítico (alprazolam). As doses, que começaram mínimas, foram aumentando progressivamente, sem qualquer resultado na paciente.

Fátima, que era espírita há anos, decidiu também procurar um centro. “Eles me falavam da necessidade da reforma íntima e da prática do Evangelho no Lar, mas isso eu já fazia”, lembra.

27 quilos

Enquanto isso, o psiquiatra aumentou a dose de fluoxetina para 40 miligramas diárias. “Eu parei de comer, comecei a ficar anoréxica”, diz Fátima, que chegou a perder 27 quilos. A médica se esforçava em atender no ambulatório de pediatria do posto de saúde, mas o dia a dia estava se tornando insuportável. Em mais uma tentativa de resolver o caso com medicação, o psiquiatra lhe administrou um antidepressivo mais forte, escitalopran. “A angústia só aumentava”, afirma.

No fim de abril de 2013, Fátima finalmente pediu licença médica. Ela passava de dois a três dias em posição fetal, não comia, não tomava banho. Estava completamente irreconhecível para a família, o marido Luiz e os filhos Caio e Felipe. Aquela mulher forte, de temperamento firme e opiniões francas havia desaparecido. 

Fátima passou a ter horror à própria casa e, principalmente, ao seu quarto. Ela sentia que existiam espíritos sofredores no local. “Um deles debochava de mim e se vangloriava de me ver naquele estado”, diz. 

Reforma íntima

Fátima começou, então, uma peregrinação em centros espíritas de Niterói e do Rio de Janeiro. Passou por cinco casas diferentes. A recomendação era a mesma: reforma íntima e estudo. Em uma das visitas, transtornada, Fátima questionou o trabalhador do centro espírita: “O que você quer dizer com ‘reforma íntima’? Acha que eu sou uma prostituta?”, disparou. “Eu dizia que iria me matar e deixar uma carta responsabilizando cada uma das casas espíritas que eu visitei pelo que aconteceu comigo”, lembra.

Em um dos centros lhe disseram que o seu problema estava relacionado ao afloramento da mediunidade. “Mas me diziam que eu precisaria estudar durante dois anos antes de trabalhar como médium”, afirma. “Como uma pessoa que não estava dando conta da sua própria vida poderia estudar dois anos?”.

Fátima mudou de psiquiatra. Passou a ser atendida pelo Dr. Mauro, que lhe ministrou venlafaxina, outro antidepressivo. “Passei a ter três ou quatro períodos de lucidez ao longo do dia, mas a angústia continuava”. Ela foi diagnosticada com transtorno depressivo maior sem alteração psicótica.

A falta de resultados dos medicamentos e dos tratamentos espirituais originou um sentimento de revolta em Fátima. Ela passou a blasfemar nas sessões de Evangelho no Lar, que praticava sozinha em casa. “Minha fé em Deus começou a ir por água abaixo”, lembra.

Faca

Em casa, passou por duas manifestações mediúnicas. Ficava completamente descontrolada, pulava na cama e depois caía inconsciente, por horas. Um dia, levantou-se do sofá, foi até a cozinha e pegou uma faca. Estava pronta para se matar, quando o marido chegou puxando-a pelos punhos e gritando o seu nome. “A ideia de suicídio, sempre com faca, me acompanhava”, diz. “Mas, intimamente, como espírita, sabia que não podia tirar a própria vida, porque haveria consequências”.

A tentativa de suicídio foi a gota d’água para o marido de Fátima. Luiz, que não seguia qualquer religião, ligou para a irmã espírita, Jucélia, que morava em São Roque (SP), para pedir ajuda. Jucélia falou de um lugar, a Casa do Caminho, em Ibiúna (SP), onde Fátima poderia receber tratamento.

A princípio, Fátima não queria viajar e o marido precisou embarcar no ônibus para acompanha-la até São Roque, para encontrar Jucélia.

Fátima e a cunhada foram à Casa do Caminho no sábado. No atendimento, o dirigente do centro, Dr. José Rezende, disse a Fátima que ela teve duas encarnações conturbadas em Veneza, na Itália, relacionadas aos obsessores que a perseguiam. E que ela estava vivendo o afloramento da sua mediunidade de cura, que deveria ser trabalhada. Mas que em três meses ela estaria boa. Era outubro de 2013.

Passou a ir todo sábado e domingo para o tratamento espiritual de desobsessão na Casa do Caminho, e também às quintas-feiras, para o curso de médium. Junto com a cunhada, Fátima fazia todos os dias o Evangelho no Lar. Dormia com água na cabeceira e procurava evitar o contato com aparelhos eletrônicos. “Eu me sentia muito bem, conseguia passear, ir ao shopping, coisas que há muito tempo eu não fazia”, diz Fátima.

Doença autoimune

Dr. Rezende pediu que ela ficasse até o último sábado de outubro, para ser atendida pelo médium Laerson Cândido de Oliveira, dirigente do IECIM, que presta atendimento mensal na Casa do Caminho.

Uma vez em contato com Laerson, Fátima afirma ter sentido uma energia muito forte. O que mais a surpreendeu foi quando a entidade disse: “Filha, doença autoimune encerrada”. A doença no caso era espondilite anquilosante, uma inflamação das grandes articulações, como quadris, ombros e coluna, que não tem cura e pode levar o paciente à depressão. 

“Eu tinha sido diagnosticada com espondilite anquilosante em 2011, antes de todo esse processo começar”, diz Fátima. “Nunca falei da doença para ninguém, em nenhum centro, porque o meu grande problema era a depressão”.

Fátima saiu de lá pasma. De volta a Niterói, procurou o reumatologista, Dr. Bruno, para fazer novos exames sobre a espondilite anquilosante. Os exames deram negativo. O reumatologista não aceitou o resultado e quis repetir os testes em outro hospital. Mais uma vez, negativo. Fátima estava curada. “Não sei explicar o que aconteceu, você não tem nada”, disse o Dr. Bruno. Fátima ficou em silencio: sabia o quanto o médico era descrente.

Postura diferente teve o seu psiquiatra, Dr. Mauro. Quando encontrou a paciente com tamanha paz de espírito quis saber o que tinha acontecido. “Contei a ele sobre o tratamento espiritual”, disse Fátima. Judeu, Dr. Mauro quis conhecer a Casa do Caminho e viajou 700 quilômetros de Niterói a Ibiúna. “Ele ficou maravilhado”, afirmou.

Finados

Hoje, aos 49 anos, Fátima se sente muito bem. Continua tomando a medicação, mas o tratamento foi reduzido a um terço. Passou a frequentar, no Rio, o Grupo Espírita Regeneração – Casa dos Benefícios. “Lá eu me encontrei”, diz. Está fazendo um curso de magnetização para trabalhar com pacientes de depressão. Ao mesmo tempo, participa das sessões de desobsessão, como voluntária na doutrinação.

“Os médicos precisam ser menos materialistas”, diz a pediatra. “Se o Espiritismo fosse mais disseminado, as clínicas psiquiátricas estariam mais vazias. Todo quadro depressivo tem um componente espiritual associado”, afirma.

Fátima passou, exatamente, por um ano de provas. “Sou muito grata à Casa do Caminho e ao Laerson por tudo o que recebi”, diz ela, que fez questão de voltar com o marido a Ibiúna para agradecer. Luiz, por sinal, se tornou espírita, depois de toda a experiência vivida com a mulher. Em Ibiúna, Fátima recebeu uma mensagem da avó Dolores: “Hoje, Dia de Finados na Terra, é o seu segundo aniversário”.


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